sábado, 24 de abril de 2010

Trem de Adriana

Aos olhos que tudo viam, ainda um pouco escapava. Junte a esses olhos atentos, uma voz quase metálica e um sorriso que outrora chamamos de "armadilha" e teremos a plena manifestação da beleza feminina. Toda essa beleza quase perdia pra brincadeira que a Lua fazia com sua imagem no rio ao lado, mas bastava um sorriso e os vários e repetidos piscares de olhos que a Lua logo ficava para trás. Como as aparências realmente enganam Adriana não enganava que talvez estava ali pra relembrar como era um passado, quem sabe distante. Semelhante a uma viagem de trem, ela ia. Só que sem rumo... Admirando paisagens... Bem verdade é que pensou e quase desceu em duas ou três estações que ao menos lhe chamaram a atenção. O que ela não esperava, é que existem mais trens pra São Paulo do que se possa imaginar...

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Havia Hívina

message in a bottle: texto melhor lido com a música Igloo de Karen O and The Kids


Mesmo que não houvesse doces e que o ambiente não fosse tão colorido. Mesmo que não houvesse neve pra brincar e não houvesse uma geladeira cheia de refrigerantes. Mesmo que não houvesse uma grama verde para deitar e um campo inteiro pra correr. E mesmo que, por alguma culpa do destino, não houvesse um mar de águas claras, ondas calmas e um coqueiro para fazer sombra, ainda sim... no fundo de uma imaginação ou no fundo daquele bar ela estava lá... Sempre pronta com um sorriso... E mesmo que não houvesse nenhuma das outras coisas... Havia Hívina.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Quando queremos sonhar...

message in a bottle: texto melhor lido com a música Food is still hot de Karen O and The Kids


Aqueles olhos pareciam ir tão longe que atravessavam a margem do rio. Evidente que eram um disfarce do seu mergulho em sua própria consciência. Pensar demais e não fazer nada é o significado de sonhar...
Quem vai saber de suas decisões?
Antes de se deitar seus olhos pareciam ir tão longe que atravessavam as ruas, os carros...
Ela, mais do que ninguém, deixava claro que os nossos olhos são disfarces quando queremos sonhar...

domingo, 28 de março de 2010

Elas adoravam Bob's

Como aviões que atrasam são os textos encomendados. Se o Bob's falasse contaria os segredos das três que diziam adorar os lanches de lá. Curiosa opção ao levar em conta todas as redes de fast-food existentes. E quando soltavam risos pareciam mais falar pra si mesmas...
"Ei, somos amigas!"
Naquele dia, as paredes brancas do aeroporto se confundiam com o sorriso de Júlia, o vento com o jeito meigo de Michelle e a noite com os olhos de Patrícia.
Mais difícil que escrever é escolher sobre quem escrever. Os aviões atrasam mas, assim comos os textos, eles sempre chegam...

domingo, 21 de março de 2010

Fernanda tomava fanta

O mundo girava como um carrossel e ao som de qualquer banda Fernanda ensaiava passos tímidos de dança. Os lustres e os espelhos do local que prestavam mais atenção na cena do que na banda talvez nunca mais seriam os mesmos...
"Mas o que você vai escrever de mim?"
Aquilo que ninguém nota ou quase ninguém. Difícil explicar a beleza que se enxerga em um simples gole de fanta através de um canundinho movido aos passos tímidos de dança... Enquanto os pés de Fernanda doiam outros tantos cambaleavam... Todos estavam bêbados, e não importa o que ela tinha feito antes ou faria depois... Naquele momento, enquanto o mundo girava como um carrossel, Fernanda tomava fanta...

terça-feira, 16 de março de 2010

A distância de Lívia

Seria a distância, de fato, a melhor das melhores soluções. Enquanto falavam de uma revolta importante de outrora e que, por sinal, intitulaza o que ela era hoje e norteava os seus atos, algumas outras exigências serviam pra quebrar o clima e dar à vida aquilo que chamamos de sabor...
"O meu é com colarinho..."
"Fresca ela, não?" risos...
E se existisse alguma verdade do dia era que a cabana mais linda de Belém (ainda não há registros de outras parecidas) estava sentada na mesa se esforçando pra se render a fala fácil e descontraída do acompanhante. Segunda verdade e mais óbvia do que a primeira, é que um dia é da caça e outro do caçador. E se o mundo está mesmo ao contrário como dizem, o contrário pode parecer normal... Dessa vez, a fala assertiva da cabana tinha um tom da mais coerente sintaxe. Era preciso surpreender...
"Comment tu t'appelles?"
"Você quer me conquistar com essas cantadas?" risos...
Para evitar o inevitável seria a distância, de fato, a melhor das melhores soluções. Mas... se o mundo está ao contrário...

domingo, 7 de março de 2010

O passado de Marla

Se ele pudesse escolher preferiria não saber o passado de ninguém. Ainda tarde o Sol se escondia em cores, deixando um rastro do seu passado... Com uma leve vontade de ir e uma enorme de ficar... Olhar pra paisagem de um mirante acima de um rio e em contato com o vento faz qualquer um pensar no passado. E no futuro também. Esperar que algo mude na paisagem seria como esperar ganhos sem apostar. Os lábios cor de acaí de Marla faziam com que o batom estragasse o natural da cor. A voz delicada e ao mesmo tempo firme faziam com que não se negasse qualquer opinião ou ordem. Decidida, ela fazia com que tudo acontecesse baseado na sua vontade e não fosse essa tão certeira sentiria o amargo de ser contrariada.
"Como alguém pode escrever isso e não crer na humanidade?"
Ao ouvir a dúvida só pensava que se pudesse escolher preferiria não ser saber o passado de ninguém... E que ninguém soubesse o dele...

quarta-feira, 3 de março de 2010

Abra a porta...

Não sabia que o frio seria tanto ao descer daquele ônibus. A ruazinha de paralelepipedo indicava que a descida íngrime não seria o caminho mais prezeroso de se fazer. Mas chega uma hora que pequenas coisas são apenas pequenas coisas. As mesmas árvores, os mesmos portões... O mundo muda tão rápido sem dar conta que algumas coisas sempre permanecem iguais. Luiza desceu a rua determinada a fazer algo que nunca tinha feito, enfrentar quem nunca tinha enfrentado, desculpar aqueles que em sua cabeça não mereciam desculpas... Ao chegar no portão a menina sabia que aquele era um caminho sem volta e que dificilmente a perdoariam... Mas chega uma hora que pequenas coisas são apenas pequenas coisas e sorrir pode ser o caminho mais fácil pra abrir as difíceis portas...

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

O que queria Adria?

Ainda dizem que o sorriso não tem luz própria. Não aquele... O que queria Adria? Talvez um olhar, uma conversa, um segredo, um nome... Algo que ficasse gravado em qualquer lugarzinho da mente e que aflorasse sem mais nem menos em qualquer outra hora do dia. Mesmo que o nome fosse difícil de se lembrar e que o segredo fosse só seu... E era! Será que Brasília estava preparada pra receber tamanha beleza e vivacidade? E Cabo Frio? A fala fácil de Adria mostrava que ela vivia como se tudo fosse uma experiência. Aproveitava o agora pra perguntar. Tinha um plano. Sabia o que queria. Olhava de lado... Se não fosse a imagem tão bonita passaria a ser algo que sobra, um exagero...
"Não está escuro pra você ler?"
Ao mudar sua posição de leitura, Adria conseguia uma posição estratégica. Talvez por coincidência ou talvez não. Em suas palavras tudo estava acertado. A decisão já estava tomada e ela divulgava baixinho... como se o segredo nem fosse tão segredo assim... Ninguém estava preparado. Nem Brasília, nem Cabo Frio e muito menos o rapaz do assento ao lado. E ainda dizem que sorriso não tem luz própria. Não aquele...

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Carolina

Algo além do blues sopraria aos ouvidos naquela noite. Até então esse algo a mais era só uma voz diferente. A voz de Carol (assim gostava de ser chamada) era algo incompátivel com o que se via. A mulher madura e um pouco séria que parecia ter certeza do que queria, talvez até baseada pela sua experiência, tinha uma voz leve como de uma menina recém chegada a adolescência. No entanto não era a voz, nem as pintas no rosto e nem a possível beleza fácil de Carol que tiravam a atenção do observador.
Eram as palavras. Era aquilo que atravessa o ar e chegava aos ouvidos. Era o som da voz misturado com sorrisos que não deixava outra escolha a não ser se encantar com a simplicidade da cena e o impacto que lhe causava. O mais difícil era que Carol não deixava pistas do que pensava e aí o ato de encostar nos seus "cachos" pra ser ouvido era a única forma de fazê-la ter medo de uma possível reviravolta. Daquilo que não estava nos planos... Sabe aquelas coisas que não precisam ser provadas pra se ter certeza que é bom? Talvez algo deu errado ou certo demais naquela noite. Talvez a cantora esqueceu de dizer algo essencial. Algo que fizesse sentido... Algo além do blues que soprasse aos ouvidos e fizesse o mundo girar...